Novo CD de Karine Aguiar busca respeito à diversidade e à liberdade

Lembro como se fosse hoje o meu primeiro contato com a Karine Aguiar. A Mazé – minha editora na época – pediu para eu procurá-la e fazer uma entrevista, pois tanto ela quanto eu, acreditávamos que Karine seria uma grande promessa do ano de 2011. E hoje, depois de 5 anos, temos a certeza de que estávamos certíssimos. Essa amazonense, da voz doce e ao mesmo tempo poderosa, está prestes a lançar seu mais novo trabalho batizado de ‘Organic’.

A obra, que leva assinatura de Matthew Parrish na produção, conta com 12 faixas, sendo algumas delas compostas por importantes nomes como Chico da Silva – sempre ele! -, Inaldo Medeiros, Liduína Moura e até mesmo Billie Holiday, que ganhou uma versão brasileiríssima de “God Bless the Child”.

Então faz o seguinte: para tudo e vem ler essa entrevista gostosa que fiz com ela. Até!

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Capa do novo CD da cantora Karine Aguiar

Como está estruturado o ‘Organic’?

Karine Aguiar – O disco é composto de 12 faixas e tem 57 minutos de duração. Em três destas faixas participo como letrista (‘Oração da Manhã’, ‘Chove Sem Parar’ e ‘Lights’) e em uma como co-arranjadora (‘Será Sagrado’). O repertório está sendo cantado em francês, português e inglês. Tem música de compositores franceses, de compositores de diversas partes do Brasil e, claro, de compositores amazônidas também.

Eu gostaria de destacar aqui além das faixas em três idiomas e da minha estreia como compositora, a faixa ‘Chapliniana’, que gravei com o Guinga ao violão. É uma canção sem letra, onde eu canto apenas em sílabas como scat singing. É de autoria dele, sendo uma obra inédita que foi cedida especialmente por ele pra este projeto.

Como foi a fase de elaboração e produção desse novo trabalho?

KA – O ‘Organic’ já vem sendo pensado há quase 3 anos. Está formado por um repertório que reúne as minhas vivências dos últimos 4 anos excursionando pelo Brasil e pelo mundo, conhecendo muita gente especial que me deu muito carinho por onde eu passei.

É um disco que me desafiou e me inseriu de maneira mais direta em todo o seu processo produtivo: a escolha do repertório foi inteiramente minha, participei da concepção dos arranjos de forma direta com o Matthew Parrish e o Ygor Saunier, além de ter tido a possibilidade de “falar” um pouco mais por meio das minhas letras. O Matt me incentivou a compor para esse disco, desenvolvemos uma relação de confiança mútua muito boa. Sou muito grata por isso.

Ele conta com composições de quais artistas?

KA – Dos compositores amazônicos, que sempre são as minhas prioridades no processo escolha do repertório, tem um bolero do Gonzaga Blantez (‘Por Toda Vida’) que eu já havia gravado algum tempo atrás como uma balada romântica voz e piano para uma demo e, que o Gustavo Libório do “Tal Qual Dublagen”s acabou descobrindo e pediu para utilizar em um vídeo que ele montou homenageando casais homoafetivos. Foi uma música que entrou no repertório e ganhou um arranjo de bolero, tendo a participação mais que especial do pianista e percussionista cubano Ricardo Castellanos.

Outra música de compositor amazonense que entrou foi ‘Será Sagrado’, do Robertinho Chaves, e que ficou bastante famosa com o Carrapicho como uma lambada. Junto com o Anderson Farias e o Ygor Saunier, pensei em um arranjo em tango pra ela, pois tem tudo a ver com o comportamento melódico e harmônico que a música já apresenta naturalmente.

Tive também uma parceria inédita e muito divertida com o Cileno em ‘Lights’ que, na verdade, é uma versão em inglês que escrevi pra música dele ‘Lusis’. O Matt pensou um arranjo mais anos 1970 pra essa música, que acabou ficando com uma sonoridade mais soul.  Outras duas parcerias inusitadas com amazonenses nesse disco foram em duas faixas que seguem um conceito mais relacionado ao free jazz: ‘Amazonas’ (Chico da Silva) e ‘Naiá’ (Liduína Moura /Inaldo Medeiros), que gravamos apenas com voz, baixo acústico e percussão.

Nas faixas ‘Oração da Manhã’ e ‘Chove Sem Parar’ assino como versionista. São versões que escrevi em português para dois temas de jazz bastante consagrados ‘God Bless the Child’ (Arthur Herzog Jr / Billie Holiday) e ‘Stormy Weather’ (Ted Koehler/ Harold Arlen), respectivamente.

As demais faixas do disco são presentes que ganhei de compositores que conheci em Paris e nas minhas andanças por outros estados do Brasil. ‘Promenades’ e ‘Vento que Embala Bananeira’ são duas canções do Rômulo Marques com os compositores Christian Gentet e Ney Veras, que residem em Paris.

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Matthew Parrish assina a produção do novo disco de Karine Aguiar

O que você buscou mostrar no ‘Organic’?

KA – Ele traz uma fase minha mais madura e tranquila. Traz uma Karine muito mais humana e generosa. Isso reflete as transformações pessoais que venho tendo nos últimos anos ao ter tido a oportunidade de conviver com pessoas e culturas tão diferentes. É um disco cujas canções falam basicamente da beleza do amor (em suas mais diversas formas), da beleza nas coisas simples, da partilha e, claro, da minha terra, que é o Amazonas.

O colorido musical que o ‘Organic’ traz representa um pouco da minha busca pessoal pelo respeito à diversidade e às liberdades individuais de cada pessoa. Estive em muitos lugares diferentes nos últimos 2 anos e, tenho percebido o quanto essas liberdades individuais vêm sendo atacadas constantemente. Eu quis trazer o ‘Organic’ como uma brisa leve não só pra minha vida, mas pra vida de todas as pessoas que tiverem oportunidade de ouvi-lo. Espero que esse disco possa aliviar um pouco a truculência desses tempos sombrios que estamos atravessando.

Quais artistas trabalharam nele?

KA – O disco foi gravado no estúdio Trama (administrado pela família de Elis Regina) e finalizado no estúdio Arsis, ambos em São Paulo, durante todo o mês de julho desse ano. A produção e direção musical desse disco é do jazzista norte-americano Matthew Parrish. Ele traz um olhar bastante sensível e globalizado para este trabalho, com toda a sua experiência de mais de 20 anos de carreira. Convidamos o Adonias Souza Jr. para realizar a captação do áudio. Ele realizou um trabalho primoroso no ‘Organic’, trazendo o ouvinte para dentro do estúdio conosco, por meio dos timbres e texturas bastante naturais e “orgânicas” que ele preservou na captação da voz e dos instrumentos.

De músicos, trabalhamos com dois pianistas incríveis: o Fábio Torres que é do Trio Corrente (premiado no Grammy em 2014) e o cubano Ricardo Castellanos, que além de pianista é um excelente percussionista e arranjador. O Matthew Parrish além de arranjador e produtor desse projeto, também gravou o contrabaixo acústico. A bateria toda foi gravada pelo Ygor Saunier e ele também dividiu as percussões com dois maravilhosos percussionistas daqui de São Paulo, o Vinícius Barros e o Leandro Lui.

Ainda falando sobre a parte musical desse projeto, eu também tive a enorme felicidade de gravar com um dos meus maiores ídolos, que é o compositor Guinga. Sobre a identidade visual, contei com a colaboração sensível e de muito bom gosto do Wagner Kaiowas, que fez as minhas fotos e com o Fábio Farello, responsável pelo projeto gráfico, ambos daqui de São Paulo.

Como será o lançamento?

KA – O primeiro show de lançamento desse disco irá acontecer no dia 30 de novembro, no Teatro Amazonas. Estou muito feliz de poder lançar mais um trabalho nesse palco sagrado. No show, iremos apresentar na íntegra o repertório do CD com os arranjos originais escritos pelo Matthew Parrish. A venda de ingressos inicia no dia 30 de outubro na própria bilheteria do teatro a preços populares.

Você está apostando nas plataformas digitais. Como está essa fase?

KA: Desde o “Arraial do Mundo” eu venho apostando nessa nova forma de consumir música e tem dado certo. Quando gravei lá em Nova York, em 2012, ao sair do estúdio, a primeira coisa que o Vana (produtor do meu primeiro CD) me disse foi: “Temos que colocar seu disco no iTunes”. E assim o fizemos. Não dá mais pra fugir dessas novas ferramentas. É o futuro, né? Ou a gente se adequa ou é varrido do mercado. Tem cada vez mais gente escutando música pelo celular e pela internet. E eu sou absolutamente a favor dessas novas formas de consumo e de democratização do acesso à música. A música tem que chegar o mais longe possível sempre e a internet tem nos possibilitado esse tipo de coisa.

Com as mudanças no Governo Federal, como você avalia o cenário da cultura no Brasil atualmente?

KA – É difícil fazer qualquer previsão nesse momento. Mas, pelo pouco tempo que esse governo tem, já dá pra perceber que ser artista no Brasil será cada vez mais difícil. Estamos sendo demonizados por requerer nossos direitos básicos. É uma cegueira gerada pela ignorância e pela desinformação acerca do mercado cultural. O orçamento para a cultura sempre foi pequeno e, pelo perfil conservador que se vê neste “novo Brasil”, a tendência é que esse orçamento já nanico sofra ainda mais cortes.

Infelizmente, o Brasil parece estar sempre querendo andar na contramão do que dá certo no resto do mundo. Veja o caso da Inglaterra, que vem realizando há 20 anos um trabalho de empoderamento dos profissionais do setor criativo e hoje consegue gerar bilhões em receitas para o país por meio da sua indústria criativa. Com a efervescência cultural do Brasil, poderíamos gerar nossos bilhões de receita pra ajudar a superar essa crise. Mas, preferimos adotar medidas absurdas como congelamento em investimentos na educação. Estamos caindo naquela velha máxima de “o que é ruim sempre pode piorar”. Espero, sinceramente, estar enganada a respeito das minhas impressões.

Quais os planos para 2017?

KA – O próximo ano foi pensado para intensificar a divulgação deste novo trabalho no Brasil e fora dele. Já recebemos propostas de lançamento na Europa e nos Estados Unidos. Faremos também alguns shows de lançamento pelo Sudeste.

 

Enquanto o novo trabalho não sai, ficamos com a versão de ‘Fica Comigo’, sucesso do Carrapicho e que foi regravado com novo arranjo pela cantora <3

Jornalista, aquariano, ruivo e temperamental
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    Bruno Mazieri

    Jornalista, aquariano, ruivo e temperamental

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