De passagem por Manaus, Walério Araújo adianta planos para seus 15 anos de passarela

No último final de semana, o Cabedal de Criadores, que tem como presidente Carllen Xavier, realizou a segunda edição do Amazon Fashion Venue (AFV), que consiste em uma espécie de semana de moda, com a participação de estilistas locais, além de lojistas. Entre as atrações deste ano, estava o controverso e amado estilista Walério Araújo. Este que vos escreve, já admira o trabalho do pernambucano-paulistano desde que participei de uma das edições do Dragão Fashion, em Fortaleza, na qual fiquei encantado com a coleção inspirada em ‘O Mágico de Oz’. Idos de 2010…

De lá para cá, acompanhei todos os trabalhos do Walério e é claro, jamais perderia a oportunidade de bater um papo com ele sobre moda, modelos trans, processo criativo e muito mais. Deixo aqui registrado os meus parabéns aos organizadores do evento. Vocês são dignos de aplausos, por acreditarem que a nossa cidade merece muito mais eventos deste porte. Sucesso, meu povo e até!

Ah, as fotos são do gente boa Diego Peres. Obrigado pela força! 😉

– Como você avalia, atualmente, o cenário da moda brasileira?

Walério Araújo – Estou adorando! Antes, somente as grandes capitais possuíam faculdades ou cursos de moda e hoje, em pequenas cidades, têm sempre alguém preocupado em fazer algo ligado a moda, pois temos uma mão de obra específica e muito rica. Quanto mais interior, maior essa carência de trabalho. E a ‘mulherada’ e os homens que trabalham com moda estão engajados nisso. A moda vem antes de qualquer coisa. Tudo hoje em dia tem moda. Pode ser o comercial da farmácia ou de um carro, mas é ligado a moda. Isso é bom para todo mundo, principalmente a gente mais veterano, mais ‘véio’, melhor ainda, pois são mais opções. Portanto, qualquer coisa relacionada ao assunto que me convidam, eu vou.

– A crise econômica que o Brasil enfrenta afetou a moda?

WA – Super e isso é visível! Eu moro em São Paulo há 22 anos e vi tanta loja fechando, eu fechei também. Sinto muita falta, mas sinto mais falta de fazer algo e ter lugar para expor, mas nunca precisei de uma loja. Tinha meu espaço porque era muito cobrado, porque meu trabalho tem uma visibilidade grande por eu vestir algumas pessoas famosas. E aí, os anônimos queriam saber onde eu atendia. A minha preocupação era maior em prol disso, mas eu não precisava.

Mas eu acho que ao mesmo tempo que deu essa ‘rasteira’ em muita gente, sinto as pessoas mais positivas. Tem gente que está reabrindo ou voltando a criar de alguma forma… Acho que vai melhorar, já está começando essa melhora no geral. E quando melhora para todo mundo, a moda vem junto. Mas acho que o ano de 2017 vai ser melhor, espero que seja, porque somos carentes de moda. Parei da fazer Casa de Criadores e a coragem para voltar agora?

O que você está preparando para comemorar seus 15 anos de passarela?

WA – Já tenho um projeto para o ano que vem. Inclusive em julho completo meus 15 anos de Walério na passarela, porque eu comecei a trabalhar com moda há muito tempo, mas associado a passarela faço 15 anos em 2017. Já convidei os stylists, já está tudo ok. Agora é correr atrás dos patrocínios, porque é um projeto grande e quero viajar com essa coleção, quero poder expor em algumas faculdades, quero poder viajar para a maioria das capitais e quero fazer em lugares específicos que é Recife, meu estado; quero fazer em Garanhuns, vizinho de Lajedo, minha cidade. Já chamei sete stylists que já assinaram desfiles meus e cada um irá interpretar três looks, com suas três modelos, seus cabeleireiros e maquiadores.

– Durante uma ida minha ao Dragão Fashion, em Fortaleza, pude conferir a sua coleção inspirada em ‘O Mágico de Oz’. Como funciona seu processo criativo?

WA –  Comecei, na realidade, com meu cotidiano. E meu cotidiano é ótimo porque meu primeiro desfile foi “Putas e Madames”. Mas é um universo que, de alguma forma, eu estou envolvido. Dividi apartamento com travesti, moro no Centro de São Paulo, sou muito associado a night… Parece que sou baladeiro todo dia, mas não. Gosto de dançar e para dançar tem que ser na noite. Então, geralmente é nesse cotidiano. Meu primeiro desfile foi no HotSpot, que era do Paulo Borges na época e extinto hoje. (NOTA DO EDITOR: Paulo Borges é o todo-poderoso da SPFW)

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Coleção inspirada em ‘O Mágico de Oz’ <3

São universos que eu convivo e posso trabalhar com mais propriedade e é mais seguro você falar com certeza daquilo que você está fazendo. Já fiz coleção inspirada em motoboys, granfinas operárias, o Mágico de Oz que era uma vontade que eu tinha, porque eu sou um ser vintage e sempre tive esse desejo. Dei meu tom, pois ela tem uma pegada de fetiche… Aliás, o meu trabalho tem sempre uma pitada de underground, mas glamuroso ou sensual, faz tempo que coloco nos meus desfiles drags e travestis que, de um ano para cá, foi bem explorado.

 é – Como você vê a inclusão das trans nas passarelas brasileiras?

WA – Vejo como algo bastante normal. Vi que o Ronaldo Fraga colocou travestis, que agora chama trans. Minhas melhores amigas são travestis e elas fazem questão de serem chamadas de travestis. Porque fica até um pouco confuso para quem não tem muita experiência nesse universo. Essa definição começou entra elas. Trans são as operadas e travestis são as que ainda não operaram. Aí falam trans e ninguém sabe se é operada ou não. Mas acho normal e, principalmente de uns 10 anos para cá, elas se inspiram em modelos. Elas querem ser magras, se cuidam muito bem e cuidam do cabelo. Agora tivemos uma trans* que fez campanha para L’Oréal e fique sabendo que ela foi contratada pela Victoria’s Secret, não tenho certeza. E soube que um dos sonhos dela é desfilar para mim e se realmente acontecer os 15 anos, sinta-se convidada.

Elas são mulheres, vestem as roupas como mulheres, se transformam em mulher o que é mais difícil. Inclusive tem uma frase da Elke Maravilha que diz o seguinte: “O homem é tão bom, que na hora que ele decide virar mulher, elas ficam melhores que as próprias mulheres”. Porque a Elke sempre quis ser homem e muita gente achava que ela era. Ela e Maria Alcina. E eu perdi a Elke faz pouco tempo, estava em Nova York, por isso não estive presente, mas quando voltei e fui lá visitar o irmão dela, ele me deu a liberdade para que eu pegasse o que eu quisesse, pois ele sabia da nossa afinidade. No sábado, dia 5, iniciou um bazar no próprio apartamento no qual ela morava e fica até o dia 20, e depois vai ter um acervo para o público visitar.

*Estávamos falando da modelo cearense Valentina Sampaio

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Walério Araújo e Elke Maravilha (Foto: Cleomir Tavares/Divulgação)

– Quais os passos que os novos estilistas devem seguir?

WA – Acho que é fazer. Fazer sempre. Lógico que é preciso ter o feeling do que as pessoas estão carentes de ver, mas com o passar do tempo você vai acabar aparecendo de alguma forma e começa o sucesso. Acho que tem que começar a fazer aulas, exercitar o produto e você vai começar a se encontrar. Quando eu comecei, trabalhava na 25 de março e saí da loja de tecido para ir para uma feira que chamava Mambo. A minha arara era uma loucura. Tinha uma clientela eclética, mas com o passar do tempo você vai filtrando as coisas. Vende a camisetinha para o amigo, aí com esse dinheiro você faz duas, quando vender faz três, quando vê você tem uma arara de produtos. Portanto, é começar a trabalhar, começar a fazer  e isso vai amadurecendo e os outros caminhos são consequência.

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Carllen Xavier e Paula Monteconrado, president e vice do Cabedal de Criadores

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Walério Araújo e o estilista amazonense Walter Viana durante a segunda edição do AFV

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Eu e Walério durante no nosso bate-papo maravilhoso <3

Jornalista, aquariano, ruivo e temperamental
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    Bruno Mazieri

    Jornalista, aquariano, ruivo e temperamental

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