Quando me tornei feminista?

Engraçado como tenho me feito essa pergunta nas últimas semanas. Aliás, ela passou a existir com frequência desde aquela polêmica envolvendo a frase de Simone de Beauvoir no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). E para quem não sabe, ela foi casada com Sartre com quem, dizem, manteve um relacionamento aberto, tá?!

Enfim, a partir de toda essa confusão – desnecessária, a propósito – passei a me perguntar: desde quando me tornei feminista? A resposta não veio por meio de data ou acontecimento, mas sim desde que “me entendo por gente”. Pois bem. Minha avó é do interior do Amazonas, nasceu em 1925 e casou com 15/16 anos. Acredito que forçada pelos pais.

Veio para Manaus e tudo certo. Lá pelas tantas, o ex-marido dela, que não é o meu avô, decidiu largá-la com apenas cinco, eu disse cinco filhos para criar. Tchau e benção. E como mulher forte que é conseguiu criar todos, sem ajuda de homem algum. Já imaginou o inferno que foi a vida dela nesse período? Vivendo em uma sociedade machista, onde se a mulher era deixada, é porque não fazia jus ao homem que tinha dentro de casa.

Depois de um tempo, conheceu meu avô, teve mais dois filhos, sendo minha mãe fruto desse amor, claro. Porém, 7 anos depois ele viria a falecer. Olha ela de novo “sozinha” no mundo. Não se abateu e venceu nessa vida. Venceu toda uma sociedade conservadora e hoje está viva, com 90 anos para contar essa história. Quer exemplo maior?

Sempre fui cercado de mulheres, tipo o Martinho da Vila. Tias, primas, amigas… Elas sempre estiveram ali, do meu lado, em diversos momentos importantes da minha vida. Cada uma com um jeito de pensar mais moderno que outro. Mulheres que chegam nos homens e não tem vergonha disso. Que trabalham coordenando os homens mais machistas do mundo, daqueles que te fazem ter um certo nojo. Mas elas estão lá, fortes e firmes prontas para o que der e vier.

Solteiras convictas e plenas. Casadas, mas com uma vida independente, dessas que não precisam de homens para ter seu sustento próprio. Mães solteiras e que, nem por isso, deixam de viver a vida. Afinal, desde quando a maternidade é problema? Tem mais é que viver mesmo, aproveitar a vida enquanto se possui saúde para tal. Namorar. Fazer sexo casual. Mulheres que não tem medo de homens e respondem à altura e combatem as grosseiras e impropérios que muitas vezes os “machões” são capazes de proferir.

Por isso, que todas as vezes que ouço alguém falar que mulher deve ser comportada, estilo princesa, me causa uma inquietação. E isso triplica quando essas palavras são proferidas pelas bocas das próprias mulheres. Meus amores, por favor, não cometam esse grave erro. Vocês foram feitas para serem donas dos próprios narizes, das próprias convicções, do próprio corpo. Não tenham vergonha dessa conquista extraordinária que é a independência.

Sou terminantemente contra qualquer tipo de agressão verbal/física contra mulheres. Brigo e reclamo todas as vezes que alguém xinga a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, com palavrões escabrosos. Respeito é bom e conserva os dentes. Quer xingar o mandato? Concordo! Quer reclamar da roubalheira? Concordo! Mas xingar é a prova de que o ser humano não possui os argumentos certos e parte para a agressão. E olha que nunca votei no PT e muito menos na atual presidente. Mas é uma questão de respeito com a mulher. E se você não entende isso, não posso fazer nada. Só lamento.

Enfim, depois que cresci, tomei consciência de que toda aquela admiração que eu tinha pelas mulheres tinha um nome e ele era: feminismo. Portanto, acredito que sempre fui feminista. Agora muito mais do que antes. É preciso se ter capacidade de entender que o feminismo, em linha simples, é “igualdade social, política e econômica entre os sexo”, como bem traduziu Chimamanda Ngozi Adichie. E se o homem soubesse o quanto é bom ser feminista, certamente ele seria mais feliz. Quero ser feminista para sempre, inclusive. Viva o feminismo! Viva as mulheres!

Músicas pós-post!

8 respostas
  1. Lahry Corrêa
    Lahry Corrêa says:

    A cada dia me torno ainda sua fã, meu primo! Que texto ma-ra-vi-lho-so!!! Tooop..
    P.s: Agora que lembrei que nós temos o mesmo avô, pq desse grande amor da vovó, nasceu a tia Leila e o Papai

  2. César Alcon
    César Alcon says:

    Brito, seu comentário é curioso. Sendo o feminismo uma luta pela igualdade entre homens e mulheres, por qual motivo ela não seria uma luta nossa também? Quer dizer que nós, homens, não queremos a igualdade?

    O simples fato de você dizer que a luta é delas e não nossa já mostra que a luta está longe de chegar ao fim.

    Sou um homem feminista. Abraço e sucesso pra você.

    Bruno, parabéns pelo texto. Sucesso!

  3. Bruno Mazieri
    Bruno Mazieri says:

    João, algum poeta já disse que todo homem tem um lado feminino… Portanto, por que não posso ser feminista? Onde está escrito isso? Enfim, me sinto e sou feminista. E não vejo problema nisso 🙂

  4. João Brito
    João Brito says:

    Texto interessante, mas não existe “homem feminista”, você não pode se apropriar da luta das mulheres! Você é um apoiador do movimento, e alguém que apoia e incentiva a causa, mas não fale que é feminista, porque isso não existe.

    Abraços

  5. Mônica Pereira
    Mônica Pereira says:

    SENSACIONAL! Cada vez mais admiro você e sua modo de enxergar a vida. Me identifico, deve ser coisa de aquarianos. 🙂

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