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Uma noite com Fernanda Montenegro e Nelson Rodrigues

Acordei na manhã desta terça – com cara de segunda, por conta do feriado do aniversário de Manaus – ainda meio anestesiado. Fiquei deitado por uns 5 minutos, fitando o teto do meu quarto e pensando: “Meu Deus, obrigado pela noite de ontem”. Agora, escrevendo esse humilde post, continuo agradecendo a oportunidade de ter visto todo o talento de Fernanda Montenegro, sem personagens e contando a vida de Nelson Rodrigues, na minha cidade. Assim, bem pertinho de mim.

Para quem não sabe, ela esteve em Manaus com o monólogo “Nelson Rodrigues Por Ele Mesmo”, no qual lê crônicas inéditas do dramaturgo brasileiro, com base no livro homônimo organizado por sua filha, Sônia Rodrigues, e que serviu de fio condutor para que a atriz pudesse assim, adaptá-lo para o teatro. Mas essa breve sinopse nunca poderá descrever, realmente, do que se trata essa adaptação. Nunca!

Ao longo de um pouco de mais de uma hora de espetáculo, com um cenário totalmente minimalista e luz intimista, Fernanda dá vida aos escritos mais viscerais da passagem de Nelson pela Terra, começando com sua chegada ao Rio de Janeiro, ainda criança; passando por sua adolescência, crises graves de saúde, amores, dificuldades, a morte de seu irmão, de seu pai, o sucesso, a prisão de seu filho durante a Ditadura Militar e pela própria atriz, inclusive, pois ele escreveu roteiros por conta de seus pedidos. Dentre eles está “O Beijo no Asfalto” e “Toda Nudez Será Castigada”.

Ovacionada mesmo antes de dizer “boa noite” ao público que lotava o Les Artistes Café Teatro (Centro), a atriz explicou como funcionaria a sistemática do monólogo, como surgiu a ideia de adaptar o livro e a importância do dramaturgo para o Brasil.

Ao som de “Vesti la Giubba”, uma das árias da ópera de “Pagliacci” e que servia de fundo musical quando Nelson criava, fomos transportados para sua vida, para o lado mais íntimo da sua vida. Fernanda conversa sozinha, parece pedir permissão do dramaturgo para contar sua vida. A música acaba, o silêncio corta a plateia. E assim ela começa sua leitura. Sem parar, sem quase respirar, sem nos deixar respirar, com pausas dramáticas que são sua marca registrada e por vezes emocionada. Como diriam os franceses: Magnifique!

Ali, naquele momento, só consigo pensar: “Obrigado! Obrigado! Obrigado”, da mesma forma que acordei hoje. O monólogo acaba, ele pede um intervalo de 5 minutos e volta para responder perguntas da plateia, assim, como quem acaba de participar de um encontro com amigos, firme, plena e maravilhosa.

Sobre a mesa de leitura encontra-se um copo com água no qual Fernanda não toca. Ao final, ela explica que aquele copo está lá caso ela precise, mas que a filha de Nelson, Sônia, que é espírita, certa vez disse que todas vezes que o copo com água estiver com bolhas, é sinal de que seu pai está naquele lugar. A atriz mostra o copo e as bolhas se fazem presentes. Ou seja, Nelson estava entre nós. Fernanda bebe a água e se despede do público amazonense com a certeza de dever cumprido. Uma noite inesquecível com Fernanda e Nelson. Até.

Trechos do monólogo

“Perdi a inocência numa expressão clássica no princípio dos meus 14 anos, na rua Benedito Hipólito, que era então a Broadway da prostituição. Ali tinham francesas fabulosas. Até as brasileiras cearenses falavam com sotaque francês, porque havia a necessidade de causar a impressão de que era francesa”.

“Eu não perdia conversa de gente grande. Só me interessava de ouvir conversa de gente grande”.

“O amor é insolúvel. A morte é solúvel, porque desemboca na eternidade. O amor é insolúvel e esta é a grande desgraça humana… Só quem ama conhece a eternidade”.

“Já escrevi mil vezes: todo amor é eterno e se acaba, não era amor. O amor não morre. Morre o amor? O sentimento que é apenas uma imitação do amor. Muitas vezes uma maravilhosa imitação”.

“Geralmente a mulher gosta mais do marido do que do amante. Porque ela só tem um marido verdadeiro, só se tem uma verdadeira mulher. O marido não se liberta dessa verdade nem depois que ela morre. Por isso que eu acredito que um viúvo que se casa está incidindo no mais grave dos adultérios, que é o adultério contra um morto”.

“Todo meu teatro tem também a marca da minha passagem pela reportagem policial. Ficcionista que não foi repórter policial, tem desfalque (…) Eu olhava, mas não me tornava íntimo do defunto. Agora o repórter policial, este sim, torna-se íntimo do cadáver e da morte (…) Eu me infiltrava nos velórios. Eu acha a coisa mais fantástica as chamas das velas. Hoje, os nossos velórios perderam isso. É tudo luz elétrica, uma falta de respeito”.

 

 

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